Thursday, October 25, 2012

abaixo dos puristas

"Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbados
O lirismo difícil e pungente dos bêbados
O lirismo dos clowns de Shakespeare

--Não quero mais saber do lirismo que não é libertação"

Poética, Manuel Bandeira

Escrevi um soneto esta semana.  Eu gosto de soneto, eu gosto de shakespeare, gosto da forma e estrutura e a maneira que organiza e aumenta o significado.  Mas ao escrever o soneto, fiquei chateado que tive de mudar o sentimento das palavras para caber num formato tão rigido.  Em verdade eu simplesmente não tinha tempo para achar as palavras perfeitas, mas entendo esta reclamação.  Também esta semana estou a ler muitos trabalhos acadêmicos, que podem encher com pretenso.  

Por fim, por que ainda tenho muito escrever além dos blogs divertidos, Manuel Bandeira usa a ausência da forma para enfatizar o seu ponto, que o significado não deve ser subserviente ao forma e estilo prescritos.


Friday, October 19, 2012

Sexta é a nova quinta

O poeta é um fingidor. 
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente,"
"Autopsicografia" -Fernando Pessoa

Este poema é especialmente especial para mim, ou melhor Fernando Pessoa é, porque andei em tantas ruas que tem o seu nome, mas essa ideia é muito interessante.  Primeiro aprendemos que a poeta é fingidor.  Somos dispostos a supor que o poeta está sempre a falar por si mesmo ainda que saibamos que isto é errado.  Mas essa ideia em si não é assim tão nova.  

Mais interessante é a ideia que há uma outra dor que ele realmente tem, ou neste caso duas, mas que não expresse.  E então pensamos: essas duas dores que ele descreve, essas são reais?  Ou será que este poema é tão meta que os dois niveis são falsos.  

Mas em verdade todos nós fazemos a mesma coisa, não somente os poetas.  Nós queixamo-nos das coisas que realmente não nos importamos, enquanto escondemos as coisas mais profundas.  

Thursday, October 11, 2012

brevidade é a alma da sobrecarga

"Na valsa
tão falsa,
Corrias, 
Fugias, 
Argente,
Contente,
Tranqüila,
Serena, 
Sem pena
De mim!"
                                                                        -A Valsa, por Casimiro de Abreu

Devo dizer: Tipicamente, eu não gosto das troques poéticas que tantas vezes aparecem em Poesia Concreta e outras poemas quando a forma é tão aparente.  Eu acho que demasiadamente, são infantil e não criam mais do que uma impressão breve e frívolo.  São interessantes e boas em moderação, mas tem perigo de tornar-se em 'schtick' (nem imagino como traduzir isso...)

No entanto, gostei bastante desta poema, porque a forma contribuiu muito ao sentimento da poema.  Ao ler, cai-se logo no ritmo da valsa, e as palavras misturam bonitamente, com uma suavidade que é típica duma dança.  Mas este suavidade discorde com o sentimento do poema, em que este homem se acha angustiado pela falta de interesse desta mulher.  As palavras são mansas e juntam-se perfeitamente, enquanto o homem senta sozinho e até o significado das palavras atraia a suavidade.  Em fim, sentimos claramente o contrasto entre o sítio elegante e os sentimentos acabrunhados dele.  Neste caso (e outros, eu concedo) a forma faz a diferença entre um poema giro e uma experiencia tocante.

Thursday, October 4, 2012

se não tivesse visto um vaga-lume, duvido que acreditasse que existia.

Bailando no ar, gemia inquieto vaga-lume:
"Quem me dera que fosse aquela loura estrela
....
Mas o sol, inclinando a rútila capela:
...Por que não nasci eu um simples vaga-lume?"

Círculo vicioso - Machado de Assis

Talvez fosse melhor só citar o poema toda, mas não quis, aqui Assis cria um poema irónica que mostra que todos nós desejamos ser algo que não somos.  Este é mais interessante, porque não é só um circulo dos desejos, é um corrente dos menos brilhante para o mais, e quando chegamos ao sól, percebemos que o mais brilhante só deseja ser o manso vaga-lume.  Acho que todos nós queremos ser maior, mas quando chegamos, percebemos que não tem graça estar no topo, não há nada para desejar, e sente-se muito só.  Quer dizer, eu imagino, em verdade nunca cheguei a ser o melhor do mundo em nada, mas Machado de Assis talvez foi o melhor escritor do seu tempo.  Será que ele se sentisse assim?

O poema em si é simples (é soneto!), mas usa eficazmente rima (ABBA ABBA ABA BAB) para entrelaçar a história.  Ao chegar ao fim, a mesma rima continua, mas repete mais rapidamente, criando um sentimento de descer pelo dreno neste circulo.

É difícil tirar foto da lua, nunca fiquei satisfeito
Por fim, embora não sei o que é ser o sól, sei muito bem o que é chegar ao destino e perceber que não era aquilo que queria.