Thursday, September 20, 2012

Se o Gato de Schrödinger cai duma árvore...

ao perguntar o que está no mato:
"Ah, já sei: um menino perdido, a chorar de medo.  Ou talvez um macaquinho perdido, a chorar de medo.  Ah, apenas um macaquinho, vocês respiram aliviados.  Mas quem disse que a dor de um macaquinho é mais justa que a dor de um menino?

Mas o que estão a imaginar?  Isso aqui é apenas um menino - ou macaquinho - de papel e tinta.  E, depois, se fosse de verdade, o menino poderia morrer mordido pela cobra. Ou então matar a cobra e tornar-se um homem. No caso do macaquinho, tornar-se um macacão....Mas não se esqueçam, são todos de papel e tinta: o menino, o macaquinho, a cobra, o homem, o macacão, seus urros e os socos que dá no próprio peito cabeludo. Cabelos de papel, naturalmente. E, portanto, não há motivos para sustos."

O deserto transforma-se num mato só pelas detalhes
Este conto (ou não conto...) começa com uma descrição dum deserto e põe a pergunta: se algo acontece onde ninguém observa, ainda importa? Ainda faz som?  Como diz no início: "Mas onde, como, foi feita essa divisão entre som e silêncio, se não com os ouvidos?" Aborda, mais ou menos, aquela ditado, "se uma árvore cai, e ninguém escuta, faz som?"

Por uma abordagem cientifica, reconhecemos que 'som' existe somente nos ouvidos. A 'realidade' são ondas, vibrações no ar, que nós observamos como som, música, etc. Há ondas que alguns ouvem mas outros não, e há ondas que existem, mas que são de tal frequência que não podemos ouvir.  Então ainda existem? E o som, existe?

Esta é uma pergunta interessante, mas Sérgio Sant'Anna estende esta questão para as coisas emocionais e literárias. Conta algumas histórias sobre homens e animais, sofrendo ou vencendo com ninguém que observe.  E então nos relembra de que nada disso existe, é somente tinta na página.  E se não lesse português, não tinha significado nenhum, então ainda existia?

Esta entrada está a alongar-se demais, portanto termino.  Sérgio não propõe uma resposta, mas acredito que essas coisas realmente importam.  Apesar de não ter uma existência objetiva, são importantes porque nos importamos.  São importantes porque somos, ainda que não sejam.  Damos existência a essas figuras de tinta, e as ondas ressoam em nós, transformando-se em música.

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